Pequena história do ARM64
ARM é a arquitetura RISC mais bem-sucedida do mundo — está em bilhões de dispositivos, de smartphones a servidores. Sua história é marcada por um modelo de negócios único e decisões de design acertadas.
Acorn Computers e o Primeiro ARM (1983–1985)
Tudo começou na Acorn Computers, uma empresa britânica que fabricava microcomputadores educacionais (como o BBC Micro). Em 1983, a Acorn buscava um processador para sua próxima geração de máquinas, mas não encontrou nada adequado no mercado.
Sophie Wilson e Steve Furber projetaram o ARM1 (Acorn RISC Machine) em 1985. Ele tinha:
- Arquitetura RISC limpa (influenciada pelo Berkeley RISC)
- 32 bits com apenas 30.000 transistores (o 68000 da Motorola tinha 68.000)
- Execução condicional em quase toda instrução (para evitar branches)
- Barrel shifter integrado no datapath
O primeiro chip ARM consumia pouquíssima energia — uma característica que definiria a arquitetura.
ARM Ltd e o Modelo de Licenciamento (1990)
Em 1990, a Acorn, Apple e VLSI Technology formaram a ARM Ltd (Advanced RISC Machines). A decisão crucial: a ARM não fabricaria chips. Em vez disso, licenciaria seus designs para outras empresas — um modelo de negócios radicalmente diferente da Intel e AMD.
Isso permitiu que fabricantes como Texas Instruments, Samsung e Qualcomm criassem processadores ARM personalizados para seus produtos. O sucesso foi explosivo.
Evolução da Arquitetura
| Versão | Ano | Destaques |
|---|---|---|
| ARMv1–v3 | 1985–1993 | Primeiros designs, 26-bit addressing |
| ARMv4 | 1996 | 32-bit completo, Thumb (instruções comprimidas de 16 bits) |
| ARMv5 | 1999 | DSP instructions, Jazelle (Java bytecode em hardware) |
| ARMv6 | 2002 | SIMD instructions, melhorias para embarcados |
| ARMv7 | 2005 | Cortex-A/R/M profiles, NEON SIMD |
| ARMv8 | 2011 | AArch64 (execução 64-bit). 31 GPRs de 64 bits. Retrocompatível com AArch32. |
| ARMv9 | 2021 | SVE2 (Scalable Vector Extension), CCA (Confidential Compute), segurança melhorada |
Dominação Mobile
O ARM dominou o mercado de dispositivos móveis por uma razão simples: eficiência energética. Smartphones precisam de processadores que consumam pouco, e a filosofia RISC do ARM (poucas instruções simples, pipeline eficiente) se provou ideal.
Processadores ARM estão em:
- Smartphones: praticamente 100% do mercado (Apple A-series, Qualcomm Snapdragon, Samsung Exynos)
- Tablets: iPad, Galaxy Tab, etc.
- Embedded: roteadores, smart TVs, microcontroladores (Cortex-M)
- IoT: sensores, wearables, dispositivos inteligentes
Apple Silicon: A Transição do Mac
Em 2020, a Apple anunciou a transição dos Macs de Intel para processadores ARM próprios (Apple M1). Foi um movimento sísmico na indústria que provou que ARM tem performance competitiva até no mercado de desktops e laptops.
O M1 e seus sucessores (M2, M3, M4) mostram que um design ARM bem-feito pode competir de igual para igual — e frequentemente superar — em performance por watt.
ARM64 no Datacenter
A ARM também está conquistando servidores:
- AWS Graviton (baseado em ARM Neoverse): servidores cloud com excelente custo/performance
- Ampere Altra: até 128 núcleos ARM64 para datacenters
- NVIDIA Grace: CPU ARM64 para HPC e IA
- Google Axion: processadores ARM customizados para Google Cloud
Raspberry Pi e a Democratização
O Raspberry Pi popularizou o ARM entre hobbistas e educadores. Milhões de pessoas tiveram seu primeiro contato com arquitetura ARM através desses pequenos computadores de placa única, que rodam Linux nativo em processadores ARM (originalmente ARMv6, hoje ARMv8 64-bit).
É por isso que escolhemos o Raspberry Pi como referência para este tutorial!
Por que aprender ARM64?
- É a arquitetura do seu smartphone (e provavelmente do seu próximo laptop)
- Cresce nos servidores: AWS, Azure, Google Cloud, Oracle Cloud
- Design limpo (RISC) — mais fácil de aprender conceitos fundamentais
- Futuro: com Apple Silicon, RISC-V e ARM no datacenter, arquiteturas não-x86 são o presente e o futuro